Bartleby, o escrivão

“Preferia não fazê-lo.”

Eis que surge o momento de quebrar a regra e começar um texto por uma frase do meio de um livro. Até me questionei se não deveria fazer como sempre, mas, de súbito, respondi a mim mesma: prefiro não fazê-lo. Foi um sinal.

Bartleby, o escrivão, surgiu da sugestão de um projeto de extensão chamado Canga Literária, criado por membros da Faculdade de Ciências Médicas e do Instituto de Letras da UERJ. Recentemente, uma amiga de adolescência, Mônica Firmida, divulgou o projeto e eu não resisti a pedir para participar, mesmo que virtualmente. Esta é a primeira obra sugerida pelo grupo desde que ingressei. E destas sugestões ocasionais, surgem leituras surpreendentes.

Quando se fala do escritor americano Herman Melville, nascido em 1819, o primeiro romance que surge à mente é Moby-Dick, a baleia branca, publicado em 1851. Antes de ser escritor, Melville trabalhou a bordo de navios-baleeiros e dessa experiência resultou sua magnum opus, reconhecida por seu valor literário somente depois de sua morte em 1891.

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Herman Melville – Por Joseph O. Eaton (pintura anterior a 1891) – Fonte: Library of Congress

Mas foi Bartleby que chegou a mim e me deixou perplexa. Trata-se de um conto que originalmente foi parte de uma coletânea em uma obra chamada The Piazza Talles, lançada em 1856. Porém, o conto seguiu voo solo. Em 2017, as editoras José Olympio e Ubu lançaram novas edições. A primeira, a que tive acesso para leitura em e-book, possui apresentação do escritor, poeta e crítico literário argentino Jorge Luis Borges. A segunda, ainda me espera no Brasil, para umas dessas experiências que só um livro-conceito proporciona. Ele é costurado, suas páginas estão atadas e, quando cortadas, revelam o texto e muros, afinal, esta é uma história de Wall Street.

The Piazza Tales

Quando Melville escreveu Bartleby, a famosa avenida já mostrava contornos do centro financeiro mundial que representa atualmente. E foi nela que o escritor deu voz ao narrador, um advogado que se apresenta como um profissional sem ambição a procurar o caminho mais fácil e que optou por representar homens ricos cuidando de seus negócios mais burocráticos. Ainda assim, ocupava uma posição de destaque como consultor de justiça do Estado de Nova York  e seu escritório ficava em Wall Street com vista para uma parede branca.

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O trabalho aumentou com o novo cargo e, já pensando na aposentadoria, o advogado resolveu contratar um funcionário para reforçar a equipe formada por Turkey, Nippers e Ginger Nut, cada qual com personalidades que faziam jus aos apelidos pelos quais eram chamados e resultavam numa combinação um tanto quanto peculiar e cômoda. É nesta circunstância que chega Bartleby, o novo escrivão.

De início, o advogado enquadra o novo elemento ao espaço sem dar a ele muita oportunidade de integração. O rapaz demonstra uma enorme capacidade de produção, mecânica e, ao mesmo tempo, apática. A rotina segue sua normalidade até que, um belo dia, o advogado solicita uma conferência e recebe como resposta um educado “preferia não fazê-la”, a primeira de inúmeras recusas feitas com as mesmas palavras, do mesmo modo e que acabam por gerar uma inesperada tensão entre os dois personagens, exposta pelo próprio narrador.

A partir de então, o leitor se depara com as inúmeras possibilidades de interpretar a postura de Bartleby. Como não temos muitas informações, ainda que seja possível traçar uma certa tendência psicológica do personagem, o caminho das metáforas é inevitável.

Por um lado, é preciso lembrar que Melville escreveu em uma época em que uma das vertentes do romantismo literário estava influenciada por um pessimismo e por uma visão imperfeita da humanidade. Por outro, a solidão e a melancolia já poderiam ser pensadas como consequências de uma sociedade individualista e automatizada, ainda que consideremos um ambiente como um escritório de advocacia e não um chão de fábrica.

A reação de Bartleby nos leva a questionar a passividade, o inusitado e até mesmo possíveis escolhas. Isso foi tão levado a sério que o escritor espanhol Enrique Vila-Matas chegou a cunhar o termo “síndrome de Bartleby” para caracterizar, na literatura, os escritores que interrompiam suas carreiras depois de um êxito literário. A pressão por continuar, em qualquer área de criação, pode levar a uma enorme frustração. E sabemos que, por várias vezes, a balança pesa para o lado econômico em detrimento ao criativo.

Ao final de sua obra, Herman Melville faz seu narrador clamar à humanidade. É mais um sinal, desta vez de alerta para os Bartlebies que continuam a existir e também para os leitores que ainda não tiveram a oportunidade de sentir o impacto de um conto como este.


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Título em Português: Bartleby, o escrivão – uma história de Wall Street

Título Original: Bartleby, the scrivener

Autor: Herman Melville

Gênero: Conto

Ano: 1853

Editora: José Olympio

ISBN: 978-85-03-01320-8

Edição: 2017

Páginas: 96

Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos

Editora: Ubu Editora

ISBN: 978-85-92886-37-0

Edição: 2017

Páginas: 48

Tradução: Irene Hirsch

Design: Elaine Ramos

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