Contra os filhos

“A máquina reprodutora continua seu curso incessante: cospe filhos aos montes.”

Muitos assuntos têm provocado polêmica na sociedade atual. Mas se existe algo que ainda flutua em um certo vácuo, esse algo é a maternidade, ou melhor, o que advém dela: os filhos. É essa bomba que a chilena Lina Meruane joga no nosso colo em Contra os filhos. Mas não sai correndo.

A obra foi lançada por uma editora mexicana em 2015, mas renasceu pela Penguin em 2018 aqui no Chile e pela Todavia, no Brasil. Poderíamos classificá-la como um ensaio mas a autora prefere usar um termo bem mais específico.

“E já que ninguém me impede – apesar dos pesares, sou eu quem assino esta diatribe…”

Capa Contra os filhos

Segundo o Houaiss, na Grécia Antiga, diatribe seria “uma dissertação crítica que os filósofos faziam acerca de alguma obra”ou uma “crítica severa e mordaz”ou ainda “um discurso escrito ou oral, em tom violento e geralmente afrontoso, em que se ataca alguém ou alguma coisa.

Então, a primeira coisa que deve ficar claro é que o discurso da autora não é um lugar de conforto. Ao contrário, seu ponto de vista, além de objetivo no sentido de elaborar e argumentar teses, é absolutamente direto no sentido de expor, sem meias palavras, um raciocínio que desconcerta.

Capa Contra los 14-vs-HIJOS-lo

Lina é chilena e mora nos Estados Unidos. É escritora, professora e Doutora em Literatura hispano-americana pela Universidade de Nova York. A ideia do projeto partiu de uma coleção de ensaios sobre controvérsias e, a ela, coube o tópico sobre filhos. Lina não os teve, mas deixa claro que seu pensamento surge justamente de um posicionamento político em relação à maternidade. E as questões trazidas por ela embasam sua posição de forma avassaladora.

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Lina Peruane em 2016 por Rodrigo Fernández

Assim como no título da obra, o problema é exposto desde o início sem sutilezas. Lina problematiza o filho-tirano, termo que usa para caracterizar não pessoas, mas uma força que se materializa nesta figura. Esta força é a própria imposição da sociedade patriarcal e capitalista, que não admite pensar que uma mulher não deseje ter filhos. Para ela, as mulheres já teriam avançado em direitos, à duras penas, desde a época da primeira onda feminista, porém, nunca verdadeiramente deixaram de ser cobradas por este papel de gênero.

“Prestem atenção: a cada êxito feminista se seguiu um retrocesso, a cada golpe feminino um contragolpe social destinado a domar os impulsos centrífugos da liberação.”

Para dar forma à questão da imposição, Lina usa uma imagem muito potente. Essa imagem não foi criada por ela e nem tampouco por uma mulher. Foi o poeta inglês Conventry Patmore (1823-1896) que publicou em 1863 um poema chamado The Angel in the house, em que um anjo simbolizava uma figura feminina idealizada, inspirada na sua mulher que havia falecido, como uma mãe disposta a sacrificar tudo pelos outros. Além de contar essa história e sua repercussão entre as feministas, Lina usa o anjo como alguém que a observa todo o tempo durante a escrita.

Assim, a escritora prossegue, alinhavando o papel sempre esperado da mulher com várias outras referências como o pensamento de Olympe de Gouges (1748-1793) e de Simone de Beauvoir (1908-1986), obras como Casa de bonecas (1879) de Henrik Ibsen (1828-1906), Um teto todo seu (1929) de Virginia Woolf (1882-1941), A mística feminina (1963) de Betty Friedan (1921-2006) e até mesmo Parque Industrial (1933) da brasileira Patricia Galvão (1910-1962), a Pagu.

Um destaque vai para o desenvolvimento de todo um cânone literário dividido em mulheres de letras com filhos e sem filhos. Aliás, essa é uma menção recorrente ao longo da obra. Lina sempre faz questão de mencionar se as pessoas citadas têm ou não filhos e como conciliaram o ofício.

Os contextos históricos, como não poderia deixar de ser, também fazem parte da problemática. Então, transitamos pela época da Revolução Francesa, pela Primeira Guerra Mundial e, ao chegarmos no Capitalismo, pode-se dizer que alcançamos o ponto central do raciocínio da autora: a ideia de que as mulheres retrocederam em sua luta por igualdade a partir do momento que sucumbiram a uma lógica que envolve a reafirmação dos filhos como projeto da família capitalista. Essa linha de pensamento não exclui nem mesmo e, principalmente, o que a autora chama de mães essencialistas.

“Vocês já devem ter reconhecido: em suma, todos esses princípios são os do retorno à Dona Natureza. Acontece que as essencialistas foram enfeitiçadas pelo anjo-materno agora vestido de verde.”

Contra os filhos é uma obra para se ler desarmada. É possível que ela abale estruturas muito sólidas, principalmente da leitora que não estiver aberta a um pensamento que pareça radical, individualista, pouco afetuoso. Porém, a essência desta leitura só pode ser absorvida de maneira fria e racional.

Talvez Lina Meruane realmente não esteja querendo convencer ninguém de deixar de ter filhos. Mas esteja tentando realizar uma proeza mais árdua: a de nos convencer que a maternidade, nos moldes atuais, precisa ser desconstruída para que possamos exercê-la sem abrir mão de espaço.

Para isso, muitas coisas são necessárias. A primeira delas é exorcizar esse anjo que simboliza a mulher idealizada no papel de mãe, através da consciência do que nos é imposto e do posicionamento político, a exigir novas políticas públicas que definitivamente contribuam para prover condições de igualdade neste jogo. Isso significa destravar um mecanismo poderoso de regras que perpetuam o sistema e impedem a decisão consciente da maternidade.

No mais, não se assuste. A diatribe traz uma polêmica dos nossos tempos e não um julgamento. Melhor ter liberdade para discuti-la.


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Título em Português: Contra os filhos

Título Original: Contra los hijos

Autor: Lina Meruane

Gênero: Ensaio

Ano: 2018

Editora: Penguin Random

ISBN: 978-956-9766-61-9

Páginas: 191

Editora: Todavia

ISBN: 978-85-88808-07-2

Páginas: 176

Tradução: Paloma Vidal

Capa: Paula Carvalho

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