Esaú e Jacó

“Quando o conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão.”

Nessa aura de mistério, Machado de Assis apresenta Esaú e Jacó, ou melhor, Pedro e Paulo. Os nomes quase pouco importam. O que realmente surpreende neste romance de 1904 é, mais uma vez, a atemporalidade do mestre e sua maneira envolvente e singular de trazer a realidade para o universo da literatura.

Machado_de_Assis_1904

São mais de cem anos que nos separam do momento histórico que Machado retrata em sua obra: o fim da Monarquia e o limiar da República. Essa transição poderia ser um simples momento histórico a contextualizar um romance. Porém, nada em Machado é trivial e por isso reconhecemos sua genialidade. Assim, as duas formas de governo remontam a uma passagem bíblica e se personificam em Pedro e Paulo.

A referência começa no Velho Testamento. Os gêmeos Esaú e Jacó, filhos de Isaque e Rebeca, pareciam brigar no ventre materno e a resposta divina era um prenúncio.

“Isaque orou ao Senhor em favor de sua mulher, porque era estéril. O Senhor respondeu à sua oração e Rebeca, sua mulher, engravidou.

Os meninos se empurravam dentro dela, pelo que disse: “Por que está me acontecendo isso?” Foi então consultar o Senhor.

Disse-lhe o Senhor: “Duas nações estão em seu ventre, já desde as suas entranhas dois povos se separarão; um deles será mais forte que o outro, mas o mais velho servirá ao mais novo.”

Gn 25: 21-23

Da passagem bíblica, Machado nos transporta para o Morro do Castelo e coloca a mãe, não mais Raquel mas Natividade, para uma consulta secreta com a vidente Bárbara para prever as coisas futuras que poderiam advir de tamanha inquietação. Por sua vez, Santos, seu marido, também achava que uma possível consulta espírita poderia trazer algum entendimento. Assim, Machado já nos mostra o entroncamento de três religiões a coabitar nossa sociedade do final do século XIX.

Os gêmeos nasceram em 7 de abril de 1870, numa família burguesa, um ano antes da promulgação da Lei do Ventre Livre e ainda num período escravagista. Seus nomes foram escolhidos por inspiração da tia Perpétua que pensava nos apóstolos e não imaginava que também estava antevendo o perfil dos sobrinhos. O que aconteceu na verdade foi que Pedro, herdou o nome do imperador e o desejo pela preservação da monarquia. Paulo fez jus ao revolucionário apóstolo da estrada de Damasco e ergueu a bandeira da República. Ambos disputaram a indecisa Flora. Ou seria uma mesma pátria, eternamente dividida entre dois extremos?

Esta obra machadiana foi escrita quatro anos antes de sua morte e em um momento que as biografias consideram triste para o autor por ser concomitante à perda de sua companheira, Carolina Augusta Xavier de Novaes.

Capa Esaú e Jacó 1 edição
Fonte: Wikipedia

Mesmo assim, ela guarda características essenciais da escrita do autor. Sua narrativa criativa através das memórias do Conselheiro Aires, seu diálogo com o leitor, sua ironia, suas referências culturais, a visão peculiar do momento social e a extrema sensibilidade na caracterização dos personagens.

E também é marcada por trechos únicos como quando Paulo assinalava que tinha nascido no dia em que D. Pedro I abdicou ao trono e Pedro, no dia em que D. Pedro II tinha assumido o império. Ou quando Paulo adquiriu um retrato do líder da Revolução Francesa Robespierre e Pedro, o do rei deposto Luis XVI. Ou ainda quando o Conselheiro Aires, ao observar Flora mencionar inveja da soberana no baile da ilha fiscal, lhe aconselha de que “Toda alma livre é imperatriz.”

Machado_ItensPessoais
Itens pessoais de Machado de Assis – Fonte: Wikipedia

A atemporalidade fica então denotada por uma espécie de polarização, assim como a vivemos hoje. O leitor ou a leitora bem sabem que a nossa época se caracteriza por uma dualidade marcadamente ideológica no campo político, econômico e de costumes. A nossa Flora atual, vivendo uma democracia jovem, também é influenciada pelos discursos e características de seus apaixonados.

Se Machado voltasse à existência, possivelmente poderia nos trazer outra metáfora ainda mais instigante. De qualquer forma, as que ele nos deixou ainda dão conta de nossas indecisões como povo brasileiro.


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Título em Português: Esaú e Jacó

Autor: Machado de Assis

Gênero: Romance brasileiro

Ano: 1904

Editora: L&PM Editores

ISBN: 978-85-254-0926-3

Edição: 1998

Páginas: 272

Capa: Ivan Pinheiro Machado

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