Argonautas

“Outubro, 2007. Os ventos de Santa Ana passam arrancando longas tiras brancas da casca dos eucaliptos.”

É assim que Argonautas zarpa. Maggie Nelson, autora da obra, se inspirou na mitologia grega: o título é o nome dado aos tripulantes de uma embarcação batizada como Argo em uma lenda que pode ter mais de três mil anos. Por sua vez, a nau teria sido construída por Argos e teria servido a um grupo de cinquenta jovens gregos com a missão de ajudar a um deles, Jasão, que buscava um velocino de ouro e deveria assumir o trono que lhe era devido por direito.

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Representação dos argonautas gregos por Lorenzo Costa (1460-1535)

Parece que essa é uma lenda com versões diferentes e que trazem uma sucessão de eventos que, a seu modo, moldam a experiência de cada argonauta. É assim que Nelson nos inspira a ler sua própria versão que não traz os heróis do passado e sim pessoas como ela, como nós, que também vivemos um pouco do turbilhão que é a vida. E turbilhão é uma boa palavra para tentar definir a leitura deste livro.

Argonautas é uma obra biográfica, que parte do relacionamento da autora com Harry. Embora esse seja um nome convencionalmente atribuído ao sexo biológico masculino, Harry é uma pessoa de gênero fluido. É possível que, neste ponto, se façam perguntas sobre este e outros conceitos da Teoria Queer e sobre gênero. Estas são umas das questões tratadas na obra e motivo pela qual não se deve deixá-la de lado.

Maggie Nelson
Maggie Nelson (imagem de divulgação)

A leitura das primeiras páginas de Argonautas é desafiadora. Não é o que se chamaria de linear. Não é óbvia. Sua linguagem não segue regras convencionais e isso é absolutamente condizente com os temas tratados. Que também não são óbvios. Não estão prontos. Tampouco são convencionais. O que, de início, parece confuso, parece tomar forma à medida que percebemos que Maggie Nelson quer exatamente desafiar nosso pensamento e tudo o que está previamente posto para o leitor em termos de comportamento e de existências pessoais. É por isso que a autora se utiliza da linguagem e da escrita para preparar o terreno e avisa pensando “ah, o que eu não diria fossem as palavras boas o suficiente” e de imediato contorna: “palavras são boas o suficiente”.

O que aconteceu comigo é que talvez eu tenha lido as primeiras dez páginas sem conseguir compreendê-las. Voltei. Reli. E algo foi começando a fazer sentido. Nelson faz parágrafos que são recortes. Conta um momento da sua vida. Para. Traz um pensamento teórico. Se o leitor tiver um pouco de calma, vai perceber que as “costuras” do texto acontecem sutilmente. Aos poucos, acostumamos.

É importante comentar que a parte teórica e todas as várias referências que a autora nos traz são relevantes. Não somente nos faz crer que estamos diante de um ensaio, mas também corroboram as vivências e as situações vividas por Maggie e Harry. E demandam uma certa pesquisa, até porque estas teorias podem não ser conhecidas pelo leitor, o que faz a experiência muito válida.

Um exemplo pode ser dado especificamente com relação à Teoria Queer. Nelson cita Eve Kosofsky Sedgwick, uma pesquisadora literária cujo trabalho trouxe à luz noções essenciais para o entendimento do conceito, justamente para “abrir caminho para que o “queer” abarcasse todos os tipos de resistências, rupturas e divergências que não tem nada ou quase nada a ver com orientação sexual”. Sedgwick queria que o termo fosse “um nominativo, como um Argo”.

Dessa forma, entre teoria e momentos da vida de Nelson, transitamos pela narrativa e somos conduzidos a vivenciar com ela as transformações pelas quais passam. Enquanto ela vive a gravidez do filho que desejaram e que conceberam através de um processo de inseminação artificial, Harry opta por procedimentos de redesignação sexual. Não fossem suficientes todas as implicações destas decisões, a autora também nos coloca para pensar sobre a vida e a morte, sobre relacionamento e maternidade, sob uma nova e interessante perspectiva .

É assim que Nelson, a todo tempo, nos coloca entre extremos e nos emociona. E toda a parte mais didática e teórica vai sendo sobreposta por uma narrativa envolvente, reflexiva e comovente.

Definitivamente, os argonautas não eram navegadores de mares calmos. Porém, são todas estas experiências que moldam suas personalidades. É o que Maggie Nelson nos oferece e demonstra através de sua escrita e desta metáfora, muito apropriada ao contexto e à reflexão que nos leva a entender as pessoas como são e como desejam ser.


 

Título em Português: Argonautas

Título Original: The Argonauts

Autor: Maggie Nelson

Gênero: Biografia / Ensaio

Ano: 2015

Editora: Autêntica

ISBN: 978-85-513-0248-4

Edição: 2017

Páginas: 158

Tradução: Rogério Bettoni

Capa: Diogo Droschi

4 comentários em “Argonautas

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