Carta à rainha louca

“Senhora, perdoai, Vossa Majestade Fidelíssima, a esta mulher – enlouquecida pelas penas do amor ingrato e de grandes vilanias cometidas por aqueles que se creem mais poderosos do que Vós mesmas…”

Em Carta à Rainha Louca, Isabel escreve à Maria. O ano é 1789. A remetente está encarcerada no Recolhimento da Conceição, em Olinda. Embora aguarde julgamento, parece ter sido esquecida. Da janela gradeada, avista a cidade, o mar e as naus que cruzam o Atlântico que a separa da destinatária, Maria I, a Rainha de Portugal e Algarves.

Apesar da distância física e social entre as duas, Isabel acredita que a condição feminina as une e que, assim, na hipótese de que sua carta pudesse, de alguma forma, alcançar a rainha, ela compreenderia sua situação. Porém, seu apelo toma uma dimensão muito maior. Sua realidade reflete a da própria colônia.

Esse é o mote para que a escritora Maria Valéria Rezende dê vida e voz a Isabel das Virgens, inspirada na existência real de uma mulher que teria sido ré em um processo sob acusação da criação de um convento clandestino. Foi nos anos 80, que a escritora esteve em Lisboa, visitou o Arquivo Histórico Ultramarino e teve acesso a estes documentos que a ajudaram a criar esta história, mesclando ficção e realidade.

Minha primeira leitura de Maria Valéria Rezende foi com o conto Dilema na coletânea organizada por Rosa Maria Strausz, Elas por Elas. O livro me fez reler o conto e considero que minha amostra já apontava para sua grandeza. A escritora também é autora de romances como O voo da guará vermelha, Quarenta dias, Outros cantos, além de contos, crônicos e de literatura infanto-juvenil. Sua obra já foi reconhecida com prêmios como o Prêmio Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de Las Américas.

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Maria Valéria Rezende (Foto: Adriano Franco / divulgação)

Aos 76 anos, como educadora e religiosa da Congregação Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, também milita pela igualdade de gênero e por uma literatura inclusiva. Todas essas referências contribuem para dar ainda mais peso e importância à sua obra e, em especial, ligam os pontos  para compreender a intenção da carta de Isabel.

A personagem imaginada pela autora é uma mulher de origem plebeia. Seus pais vieram para o Brasil como parte da comitiva de uma família fidalga com a missão de assumir um engenho na Bahia. Tendo nascido na colônia, sua experiência de vida parte desta perspectiva, como uma mulher branca que se converte em uma dama de companhia e que obtém um privilégio em especial: o letramento.

“Notai, porém, Majestade, como agora já sou capaz de relatar-Vos, de maneira tão mais ordenada e seguida do que nas minhas primeiras páginas, a história que Vos prometi, por ser tão bom remédio para a alma e o juízo o simples poder de escrever e ordenar no papel as ideias e as palavras. Vede, Vós mesma, como louca não sou quando não há quem se empenhe em me enlouquecer!”

E é justamente através da escrita que Isabel encontra meios para sobreviver e reagir. Em seu processo de conscientização, através da vivência e da leitura, Isabel reconhece que há algo de errado em relação à sua própria condição e também algo de podre no reino do Brasil Colônia. Assim, temáticas como o sistema patriarcal e escravocrata, poder, política, história e religião se mesclam em uma narração que, de louca nada tem.

A narrativa é composta por quatro partes que registram os anos de 1789 a 1792. No primeiro, Isabel inicia a carta. O tom, como seria de esperar é formal, porém a autora se utiliza de um recurso para fazer com que Isabel solte o verbo. Ao escrever, a personagem se arrepende nos trechos mais diretos e os rasura. Graficamente, o texto aparece tachado, o que obviamente chama atenção do leitor e se justifica: são as melhores partes.

Na continuação dos anos, Isabel detalha o papel dos outros personagens na história, como o negro Gregório, a sinhá Blandina e Diogo Lourenço. Também explica melhor o contexto e, principalmente, como se tornou copista e escrivã no decorrer da sua vida.

A única coisa que parece ter, de alguma maneira, conduzido Isabel a uma possibilidade de se impor, de fato, foi ter aprendido a ler e a escrever.  Se por um lado, a escrita pudesse até parecer um dom, por outro, o ato em si foi de resistência. Presa e tida como louca, sem acesso aos meios necessários, ela furtava folhas e fabricava tinta a partir de excremento das aves, pois considerava esta possibilidade sua única chance de romper seu destino de invisibilidade.

É impossível terminar a leitura e não se emocionar diante da perplexidade  de Isabel ao constatar os eventos históricos, enquanto ela escreve e, mais que isso, diante da constatação da condição da própria rainha. Neste sentido, vale emendar a leitura com D. Maria I: as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”, livro também lançado em 2019 pela historiadora Mary Del Priore.

Talvez a pesquisa histórica pudesse ajudar a compreender como realmente poderia ter sido a resposta de D. Maria, se a carta de Isabel tivesse alcançado seu destino. Me cabe duvidar se, sentada em seu trono, ainda que com uma revolução social na monarquia vizinha, como a coroa pesaria na hora de considerar o padecimento da súdita neste território dominado e distante, muito antes de Napoleão despachar a Família Real para cá.

Será que Maria Valéria Rezende poderia nos presentear com uma resposta à súdita louca?

 


 

Título: Carta à rainha louca

Autor: Maria Valéria Rezende

Gênero: Ficção brasileira

Ano: 2019

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-5652-082-1

Páginas: 143

Capa: Estúdio Bogotá

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